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Efeito colateral

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Domingo passado (26 de março), eu tive o prazer de jantar, no mercado do Mucuripe, em Fortaleza, com um amigo de longas datas e ex-companheiro de trabalho no serviço público federal. Pedro Azevedo é o nome do dito cujo, craque de dominó e adepto do futebol acreano antigo.

E então, como ambos somos saudosistas da bola, naturalmente o principal tema da nossa conversa foi o clássico “naquele tempo”. Muitas das histórias lembradas eram do nosso domínio comum. Muitas outras, porém, um de nós sabia e o outro não. Aí, fomos completando memórias!

“Cracaços” como Bico-Bico, Escapulário, Dadão, Touca, Jangito, Espanhol, Pedro Feitosa, Mozarino, Aldemir Lopes, Eró, Palheta, Bolinha, Guedes, Chico Alab, Zé Augusto (goleiro)… E outros nomes sem a mesma intimidade com a bola foram, em algum momento, lembrados na conversa.

Lá pelas tantas, porém, pra além das peripécias dos fabulosos jogadores que pontificaram no futebol acreano, lembramos uma prática comum a boa parte deles, que os fez padecer de graves problemas de saúde depois de abandonarem os gramados: o uso do medicamento glucoenergan.

O remédio glucoenergan era um injetável, aplicado direto na veia do de quem se prestava a tomar. Desenvolvido na década de 1960, destinado, principalmente, a agir como supressor do apetite e como suplemento vitamínico, a droga proporcionava doses extras de energia aos usuários.

Como quase ninguém ligava muito para a preparação física, mas queria apresentar bom desempenho atlético, a ideia era apelar para o glucoenergan alguns minutos antes dos jogos. Simples, fácil e sem muitos custos. O “Gluco”, como carinhosamente o chamavam, operava milagres!

Tudo parecia perfeito. Ninguém poderia imaginar que no futuro quase todos os usuários do glucoenergan se veriam às voltas com o flagelo da Hepatite C. Muitos, a essa altura do tempo, já perderam a batalha pela vida. Outros seguem por aí numa dura rotina de pacientes transplantados.

De acordo com especialistas no assunto, o problema nem era o medicamento, mas a forma como este era ministrado. É que não se usava seringas descartáveis. E, assim, a mesma agulha passava de braço em braço. Um portador de hepatite, portanto, contaminava os demais usuários.

No final da nossa conversa, eu e o Pedro tentamos fazer uma lista de ex-jogadores do futebol acreano que foram vítimas da Hepatite C. Lembramo-nos de vários. O efeito colateral do “Gluco” foi fatal para muitos. Mas isso não aconteceu só no Acre, viu? A prática era nacional!

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